quarta-feira, 18 de maio de 2011

Uma nova queda. Como a política econômica afetará o consumo da classe “C” .


      No ano de 2010 muito se falou sobre o crescimento da classe “C” no país, este crescimento proporcionou também um importante aumento na demanda domestica, ou seja um aumento no poder de compra das famílias brasileiras. Li uma reportagem em dezembro de 2010 que tinha como titulo “Um novo salto”, demonstrando que o Brasil estava crescendo, aumentando o seu consumo e se destacando no cenário mundial, com o crescimento da demanda interna. Já se passaram três meses da publicação desta reportagem, e o cenário econômico nacional mudou muito, a classe “C” não está rumo a um novo salto, e sim a uma nova queda.
Que houve uma expansão da classe “C” no Brasil isto é evidente, e que esta classe está consumindo mais, também é evidente, mas o que quase não é dito, é que este consumo esta com os dias contados. É notório que o nosso país não possui uma política expansionista, mas a nossa política monetária está toda voltada para o combate da inflação, e isto de forma ortodoxa, ou seja, com políticas de juros altos. A reportagem que li, demonstra otimismo no consumo domestico brasileiro, muitas famílias tiveram acesso a casa própria, eletrodomésticos, educação, entre outros. Tudo isto era noticia ainda em 2010, já no inicio de 2011 as coisas mudaram muito, o otimismo dá lugar ao receio e a expansão cede lugar à retração; tudo isto, pois precisamos conter o avanço inflacionário, o Brasil precisa segurar o gigante dragão da inflação.
O Brasil ainda é um país extremamente desigual, ainda estamos entre os 10 países mais desiguais do mundo. As nossas políticas ainda não estão voltadas para o crescimento sustentável da oferta de bens e serviços, estamos tentando combater a inflação, e isto barra a distribuição de renda no país. Nos dois últimos anos do governo Lula, vimos uma política de fortalecimento da demanda, o credito foi expandido, houve redução de impostos, houve redução dos compulsórios bancários, enfim houve um forte incentivo ao consumo das famílias. Segundo o governo, estas eram medidas necessárias para enfrentar a crise internacional de 2008, que para os brasileiros não passou de uma simples “marolinha”. Novamente o Brasil demonstra incompetência na condução econômica do país. Se o maior problema econômico é a inflação, eu preciso combatê-la e evitá-la ao Maximo, mas se incentivo a demanda por veículos, e não incentivo a oferta de combustíveis, o que acontece? Terei uma maior demanda para uma oferta praticamente estável, usando a velha lei de oferta e demanda, um aumento na demanda provoca aumento nos preço, isto se a oferta permanecer estagnada, e isto gera a tão temida inflação.
Por dois anos (não quero dizer que foram os anos de campanha da atual presidente, prefiro acreditar que foi apenas coincidência) o país teve os mais variados incentivos para o aumento do consumo da maltratada classe média brasileira. Houve um aumento significativo na demanda domestica em diversos setores, o que fortaleceu o mercado interno e colocou o Brasil em posição de destaque no cenário mundial. Mas nos mesmos dois anos a classe industrial não teve benefícios para aumentar a sua produtividade, a indústria de automóveis se beneficiou do incentivo fiscal, vindo através da redução do IPI, fato que também beneficiou a industria de eletrodomésticos. Mas economia não vive apenas de veículos e eletrodomésticos, é preciso muito mais do que isto. A construção civil também cresceu muito, mas graças à demanda impulsionada pelo programa (eleitoral) “minha casa minha vida”, mas que no ano de 2011 já dá sinais de que o crédito será menor e a classe “C” terá mais dificuldades em adquirir o seu imóvel.
O presidente da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) Eduardo Eugênio Gouveia Vieira , fala em nome de toda a classe industrial brasileira, que há anos luta pela redução da taxa de juros. “Nosso diagnostico é claro e há anos estamos falando que é preciso reduzir a taxa de juros para a moeda enfraquecer e os investidores não virem com tanta avidez”. Se os juros estão elevados, falta investimento na produção, as indústrias ficam impossibilitadas de expandirem a oferta de bens, pois a política monetária favorece a especulação financeira em detrimento do aumento de investimentos na produção. Quem produz neste país sofre com a alta carga tributaria, e a dificuldade de obtenção de credito para o financiamento produtivo brasileiro. Marcio Pochmann, presidente do IPEA falando a este respeito diz: “A melhor política de combate a inflação é que o investimento cresça mais que o consumo; taxas de juros altas fazem o investimento privado buscar liquidez, e uma moeda valorizada torna a importação atraente”. Não iremos conseguir a vitoria sobre a inflação sem investirmos no crescimento da oferta.
Bom; mas porque eu dei o titulo deste artigo de uma nova queda? O que ocorreu com a classe “C” nos últimos anos tem prazo de validade e isto foi demonstrado já no inicio do governo Dilma. Para manter o consumo elevado é preciso emprego, que é o grande gerador de renda. Outra forma de obtenção de renda são os programas assistenciais (isto é a cara do Brasil), como Bolsa Família, Bolsa educação e outros, todos graças a política fiscal do governo. O emprego está diretamente ligado a produção de bens e serviços, mas com a retração econômica graças às altas taxas de juros alguns postos de trabalho deixarão de ser criados. A política fiscal precisa ser revista, o governo tem que reduzir gastos, então os cortes no investimento públicos serão certos, e continuaremos com uma péssima infra estrutura - o que sempre se colocou como um gargalo ao crescimento econômico - , mas porque os investimentos serão reduzidos? Serão reduzidos porque o governo não tem caixa para manter os investimentos e os programas assistenciais; logo a prioridade do governo é o bem estar da camada mais pobre do país, é preferível manter os benefícios e frear o crescimento produtivo brasileiro.
 Se para a classe “C” houve um grande salto até o ano passado, é melhor se preparar para uma grande queda, pois o aumento no consumo gerou inflação, e como o país só aprendeu combater inflação com redução de consumo (via taxa de juros), é melhor se preparar, pois o Brasil irá frear bruscamente a expansão do credito e do consumo, para manter as metas macroeconômicas do país. Um grande salto virá no dia em que se Completar o ciclo de industrialização, torná-lo intensivo em tecnologia, e garantir uma taxa de juros menor, vale lembrar que é preciso expandir o emprego no país, e para isto deve-se mudar o foco de nossa produção, O foco na produção e exportação de bens primários como minérios e soja não possibilitará a criação de novos empregos com melhores salários, devido à maior capacidade técnica do empregado. Não quero ser pessimista, quero apenas ser realista, o mesmo país que fortaleceu o consumo e fez com que uma importante parcela da população tivesse acesso ao credito e a aquisição de bens e serviços com maior facilidade, será o país que dificultará a vida desta parcela da população para segurar a inflação. Temos um imenso mercado interno que pode ser considerado como promissor, mas a nossa política econômica dificulta este processo, e impede o nosso crescimento. O país precisa valorizar a produção, completar o ciclo industrial  reduzir a dependência externa principalmente de tecnologia, investir em educação e capacitação profissional. Agindo assim teremos um “verdadeiro salto” em nossa economia, e a nossa população (independente da classe), terá uma vida mais digna e com mais oportunidades.



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